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sábado, 29 de dezembro de 2012

Corajoso é quem vive com o coração!


A palavra coragem é muito interessante. Ela vem da raiz latina cor, que significa "coração". Portanto, ser corajoso significa viver com o coração. E os fracos, somente os fracos, vivem com a cabeça; receosos, eles criam em torno deles uma segurança baseada na lógica. Com medo, fecham todas as janelas e portas – com teologia, conceitos, palavras, teorias – e do lado de dentro dessas portas e janelas, eles se escondem.

O caminho do coração é o caminho da coragem. É viver na insegurança, é viver no amor e confiar, é enfrentar o desconhecido. É deixar o passado para trás e deixar o futuro ser. Coragem é seguir trilhas perigosas. A vida é perigosa. E só os covardes podem evitar o perigo – mas aí já estão mortos. A pessoa que está viva, realmente viva, sempre enfrentará o desconhecido. O perigo está presente, mas ela assumirá o risco. O coração está sempre pronto para enfrentar riscos; o coração é um jogador. A cabeça é um homem de negócios. Ela sempre calcula – ela é astuta. O coração nunca calcula nada.


Osho

Localização - Aescher Hotel em Appenzellerland, Suíça.
Fotografia - Peter Boehi


Recebi esta mensagem no Facebook e durante toda leitura pensei em PARTO.. pensei na entrega de uma mulher para parir.. pensei na pulsação do coração vibrando para trazer seu filho ao mundo enquanto o cérebro está descansando.. pensei no quanto é empoderador sentir-se livre para parir e fazer as próprias escolhas, escolhas do coração, não da lógica cerebral.. pensei na oportunidade do bebê ao nascer em seu tempo e o milagre de viver o amor e o respeito em sua máxima plenitude.. pensei na natureza selvagem do poder der Ser Mulher.. pensei na força e no sagrado feminino presente em cada mulher que só está à espera de um sopro de liberdade para fazer uivar a loba dentro de si.. pensei na transformação do templo do corpo ao fazer crescer o útero, ao alimentar um Ser de Luz, ao produzir todo coquetel hormonal que se é preciso para parir e nascer, ao projetar tempo e força para o nascimento, ao fazer jorrar o néctar da Mãe.. pensei naquele olhar de Mãe e Filho, olhar de cumplicidade e verdade, olhar de entrega e veneração, olhar de amor e paixão, olhar sincero do coração! 

domingo, 30 de setembro de 2012

Plantio da Placenta: um novo começo!

Ontem foi um dia muito especial para nossa família. Além do aniversário de 2 anos do Grupo Luar, equipe de enfermeiras obstetras que atende partos domiciliares, e que foi aqui na Casa Vivà, foi também dia de renascer com a entrega da nossa Placenta para a Mãe Terra.

E diante da Mãe Terra, a placenta que irá nutrir
a esperança e o amor por um mundo melhor!
A semana que passou foi muito intensa para mim, cheia de sentimentos, sensações, emoções que antes eu não havia experimentado. A organização da comemoração do Grupo Luar me fez remexer em muita coisa "adormecida" dentro de mim, no mais íntimo do meu coração. Consegui, nesta semana, re-significar muitos do que aconteceu a mim e a minha família no processo de parto meu e nascimento da Beatriz. O que antes era marcado pela cronologia, hoje deixou de fazer sentido pelo tempo, e começou a fazer sentido pelas sensações que nos causou. 
Até então eu precisava apontar alguns culpados por tudo o que aconteceu. Era peso demais pra carregar sozinha. Hoje eu sei que ninguém além de mim poderia parir, em todos os sentidos possíveis desta palavra. Embora eu, na gestação, me sentisse empoderada das minhas escolhas, somente hoje eu me sinto empoderada de toda a minha vida. Percebo que minha escolhas não precisam seguir uma linha linear ou muto menos atender a anseios alheios. Minhas decisões agora realmente me completam e me representam. São como um símbolo. 

E foi banhado com tantas resoluções e compreensões que ontem, ao encerrar a festa do Grupo Luar, nossa placenta foi plantada. Entregue novamente à Terra, devolvendo à Mãe Divina tudo aquilo que ela nos ofereceu durante a gestação da Beatriz e durante esse quase 1 ano e 3 meses de incubadora. Esse tempo de espera foi como uma nova gestação. Meu coração estava se preparando para poder entregá-la ao mundo, para nunca mais vê-la em estado cru, mas agora a veremos nos olhos da Beatriz, na sua força, no pezinho de araçá que plantamos junto à ela. A veremos em cada Lua Cheia, feminina, Mãe, Guerreira. Ainda a sentiremos cada vez que uma nova folha nascer, quando cada fruto brotar. A sentiremos na brisa, a veremos coroando o céu com todo seu poder. Órgão mais completo do corpo humano, que faz parte de mãe e filho, que é dos dois, sem egoísmo, somente entrega. Ela purifica, nutre, protege. Nossa placenta é bem pequena, com o cordão umbilical fino e delicado, mas toda essa aparente fragilidade guarda uma força que não conhecemos tamanho poder que tem; que alimentou, nutriu, protegeu durante os meses em que Beatriz estava dentro de mim.

E para relembrar, a Árvore da Vida impressa com o sangue puro da nossa placenta, feita com muito carinho pela Isabella no dia do nascimento da Beatriz.
Dizem os antigos que a Árvore da Vida representa o caminho do ser que foi nutrido por ela.
Tenho certeza que o caminho da Beatriz será de muita luz.
Nossa anjinha, flor de nossas vidas!
Um ponto de luz no Universo que veio para transformar nosso destino.
Gratidão à ela e à Deus por ter nos escolhido!

Pessoas muito importantes para nossa família estiveram presentes no nosso ritual de entrega. As nossas amadas parteiras, a nossa doula, a nossa fotógrafa, a nossa anja "ladra" de placenta, um casal de amigos que sabem bem a magia de parir, e um casal de amigos cujo fruto ainda se encontra no ventre, sendo nutrido pela tão admirável placenta. Foi lindo!

Logo que o Raul colocou a placenta no berço, cantamos uma linda canção da Isadora Canto: "Bem vindo meu novo ser, cercado de proteção, de tanto amor tanta paz, dentro do meu coração; É como se eu tivesse esperado toda a vida pra te embalar, é como se eu tivesse esperado toda a vida pra embalar." Linda demais, expressa tanto sentimento, tanta verdade! A Beatriz ouviu tanto essa música, inclusive quando estava na barriga, ligada à placenta.


A Beatriz prestou atenção todo instante. Olhou lá dentro de cada um que falou com ela desejando bênçãos. Contemplou o fogo que selou o plantio. Dançou e cantou as bênçãos e canções que entoamos para ela. Para que sua vida seja repleta de luz, sabedoria, saúde, pureza, plenitude. 

O Guga, nosso gato, ficou todo o tempo observando. Um amiguinho da Beatriz também estava presente para ajudar a entregar as boas mensagens aos céus. E ela recebeu de um amiguinho mais velho um doce "que o Papai do céu abençoe". Foi muito especial. Junto com a placenta e com a mudinha de araçá, cada um que estava presente, entregou à terra um objeto, repleto de intenções mágicas, que irão ao longo da linda vida da Beatriz, cobrindo a vida dela de encanto e luz.

Enquanto o Raul enterrava a placenta, eu cantei uma música muito especial para nossa família: "Na porta do mundo tem uma roseira que flora e chora; Não há ventania que a apague a candeia do sentimento; No pé do vento tem uma cantiga que quando sopra; Roda menina, derrama alegria, realça o dia; Toda criança que nasce parece a primeira estrela, amor promessa brilhando no céu do tempo!"

Oferenda do Raul: raízes para firmar-se à terra; alimento para nutrir a vida
E lá se foi ela, a placenta agora não é mais nossa, não está mais sob nossa proteção. Agora ela é da terra, agora ela irá alimentar a bondade e a esperança, irá nutrir com todo seu poder de Mãe o pezinho de araçá.
Todo aquele sangue que ficou contido ao longo desse 1 ano e 3 meses irá voltar para a Beatriz em forma de força divina. Que este sangue possa curá-la quando ela tocar o chão. "Mãe terra eu te sinto sob os meus pés; Mãe terra eu ouço a tua voz; heya heya heya aho" Canção que embalou a dança circular que fizemos em torno do plantio da placenta. Em círculo simbolizamos o Todo formado por cada unidade presente. Muita gratidão por este momento precioso. 

Que este sangue leve a vida e traga
vitalidade à Beatriz e aos filhos do mundo.
Pessoas muito especiais estavam lá, pessoas que estavam conosco em coração no dia do nascimento da Beatriz, e que ontem puderam estar presentes em nosso renascimento.

Simone - nossa fotógrafa
Talia - nossa doula

Aline - uma de nossas parteiras

Carol e Gustavo - amigos que carregam no ventre um filho de luz
'
Maria Rita - uma de nossas parteiras

Adelita - uma de nossas parteiras

Estavam presentes também a Bella,
nossa anja no nascimento da Beatriz;
Pri e César com o pequeno Hayan;
Breno filhote da Talia; e
João Paulo, namorado da Simone.






















Com todo amor do mundo para Beatriz, nossa anjinha de luz
que trouxe para nossas vidas a força divina de transformação e consciência.
Foi árduo, foi intenso, foi muito difícil entender os percalços da nossa história. Mas não só ela aconteceu exatamente como tinha que ser, e por isso também somos gratos, Mas foi essa luta que nos encheu de força, de garra, de determinação para lutarmos por outras famílias, lutarmos pelo amor e respeito. Porque nossa missão é mudar o mundo, e não há melhor forma de cumprir nossa missão do que recebendo com carinho os novos filhos do mundo.

Que este pé de araçá cresça forte 
e pleno de vida; que a luz o guie 
às estrelas para brilhar 
por um mundo melhor!

AHO! AHA! 
Gratidão!

terça-feira, 29 de maio de 2012

Compartilhando: Acolhendo (a mãe e) o bebê


Por Tatiana Favaro Lima

Fonte: Arquivo Pessoal
A leitura do capítulo "Recém-nascido" do livro Guia da grávida informada e consciente me fez lembrar das histórias contadas por minha avó de seus partos e puerpérios. Minha avó era uma pessoa que mantinha com muito fervor as tradições relacionadas ao nascimento e a morte. Lembro-me dela falando do zelo que se tinha com a mãe e com o bebê recém nascido. Lembro-me que chegávamos a rir do excesso de zelo, tradições bobas e sem sentido. Será? Desde que pari a primeira vez minha avó me parece muito mais sábia do que pensava...

Lembro-me dela falando que na primeira semana de pós-parto, mãe e filho eram preservados em repouso e isolamento. Sem visita nem dos familiares mais íntimos. Só entravam no quarto a parteira e/ou uma mulher mais velha da comunidade para cuidar da higiene e alimentação da mãe.

Hoje penso como seria bom termos direito a este isolamento. Seria mais fácil resolver os problemas de amamentação sem público, sem visitas, sem ter que se preocupar com afazeres domésticos, sem ter que conversar ou dar atenção a outras pessoas... somente a mãe e o bebê... imersos nas suas emoções e no seu processo de apaixonamento.
Nas semanas seguintes as pessoas da casa iam tendo acesso a mãe e ao bebê em horários bem restritos. A mulher permanecia de repouso por mais uns 30 dias, para garantir boa cicatrização/recuperação do parto e descanso suficiente para que pudesse cuidar do bebê com prazer e disposição. 
Como esses bebês deviam ser mais felizes, pois por pelo menos 40 dias esta mãe ficava dedicando-se exclusivamente a este filho. Para isso, a mãe era assistida por outra mulheres (familiares próximas e vizinhas). Essas mulheres não vinham visitar a puérpera, pelo que entendo das histórias contadas pela minha avó. As mulheres daquela comunidade automaticamente se organizavam e se revezavam para apoiar a puérpera. E isso me lembro de ter presenciado a até pouco tempo atrás... logo que chegava a notícia de um nascimento, minha avó já se punha a cozinhar uma canja ou sovar um pão para levar para aquela casa. Ela dizia que ia “visitar”, mas esta visita era muito diferente das nossas visitas de hoje. Ela ia de braços abertos para ajudar... lavava louça, varia casa, levava algum alimento, dava banho nos filhos mais velhos... Tão diferentes das visitas de hoje que levam presentes e esperam encontrar mesa posta, casa decorada, mãe disponível e sorrindo. Chegam querem pegar o bebê no colo, conversar em seu tom de voz normal, comem, sujam e vão embora, muitas vezes tarde da noite. Se a mãe põe limites nas visitas é logo taxada de fresca e logo começam os palpites de que “o bebê tem que se acostumar com barulhos”, sem contar os palpites sobre amamentação, sobre o parto, sobre os cuidados com o bebê. Tudo isso a meu ver interfere no processo de imersão que esta mãe necessita durante o puerpério. 
Mas muitas vezes a própria puérpera não se permiti assumir que precisa desta imersão, que o que ela quer naquele momento é ficar com o bebê e somente com ele. Afinal, seria mesmo frescura? Como enfrentar familiares e amigos? Como ir contra a corrente, neste período de tantas dúvidas e fragilidades. 
Acho que a mulher realmente tem que estar muito segura de si e preparada (informada) para enfrentar e impor suas necessidades e defender as necessidades de seu bebê. Além disso, a presença do pai consciente também é muito importante, pois ele sim, nos dias de hoje, tem o papel de proteger o puerpério, já que não contamos mais com aquela rede de apoio das antigas comunidades femininas. 
Vejo um paradoxo de isolamentos das famílias modernas, onde estamos expostos nos momentos em que deveríamos estar recolhidos, porém permanecemos isolados do verdadeiro contato comunitário. As pessoas sequer se sentem dignas de receber ajuda. Imagino como é visto com estranheza uma vizinha bater a porta de uma puérpera e lavar a louça e ir embora. Ou levar um cozido e não entrar para ver o bebê. Ao contrário, visitamos, levamos presentes caros e não ajudamos em nada. Nem nos permitimos pedir ajuda, quando necessário.
Sobre outro aspecto fiquei analisando como em outras vezes as famílias ficam ansiosas receber visitas e/ou sair de casa com os bebês. As mulheres hoje geralmente possuem rotinas exaustivas de trabalho, vida social intensa, e estranham a calmaria, o silêncio e o isolamento do puerpério. Muitas vezes são as mulheres que não conseguem suportar o silêncio do puerpério, pois neste silêncio, além do contato com o bebê surgem milhões de questões íntimas. E será que esta mãe está preparada para enfrentar este encontro tão profundo com seu filho e sua feminilidade mais profunda? Não seria mais fácil sair, andar, correr, trabalhar? A maioria dos relatos que encontro de puérperas é: “eu sempre trabalhei tanto, achei que ia ser moleza cuidar de um bebê...” Mas geralmente elas se surpreendem e muitas vezes não dão conta de manter este período de intimidade. E fogem... para os shoppings, para os parques, para as academias, para o trabalho... Muitas vezes com bebê no colo, ou no carrinho... expondo aquele ser sensível a um ritmo frenético, totalmente fora do seu ritmo. E muitas vezes eles realmente não reclamam, não naquela hora... não naquele dia... não da maneira que se espera. E com isso essas mulheres “pulam” o puerpério e perdem a oportunidade única de imersão e encontro, com seu bebê e consigo mesma.
Ainda sobre o texto gostei muito da forma como é exposta a visão do bebê sobre este período inicial da vida. Ressalto os pontos que achei mais interessantes:
“Ele é o vazio da ausência do corpo a corpo”
“Ele se vê mergulhado em uma avalanche de estímulos sensoriais”
“Nosso corpo é seu berço primário, seu principal porto seguro.”
“Um bebê precisa, primeiramente, receber o toque amoroso, o contato pele-a-pele.”
“Seu primeiros dias respirando pelos pulmões. Está limpo o ar que ele respira?”
“Tudo deve ser bem delicado, respeitando seus tempos, sua pequenês, suas necessidades.”
“Permitimo-lhe esse luxo: sono tranquilo, silencioso e no escuro”
“Como então oportunizar ao bebê seu rítmo? Prestando-lhe atenção.”
“Uma pessoa que é sujeito é encarada com atenção e consideração, com aquele interesse que temos por algo que nos fascina e desperta o nosso respeito.”
“As crianças, por estarem de alma nua e totalmente sincera, percebem na hora o fingimento, a rigidez, o distanciamento emocional. E sofrem.”
“...a única forma disso acontecer plenamente é conversando com ele”
“É preciso pressupor que nosso bebê seja inteligente, presente e receptivo.”
“Os erros devem ser apontados e trabalhados, mas não podem sabotar a auto-estima da criança.”
“Use todas as palavras que conhece,...”
“...crie sons para as emoções e as caretas.”
“Cante para seu bebê.”
“Embale-o em sua voz e envolva-o numa dança, para que ele descubra rítmos musicais e movimentos harmônicos.”
“Faça com ele o lhe agradar mais, pois sua felicidade será transmitida e ele fará experiência de emoções positivas que o incentivarão a crescer e se fortalecer. Sua alegria é a dele também.”
“Uma mãe bem disposta é a chave para um filho tranquilo.”
“Extendendo a gestação, dar o peito é um ato de amor e doação dos mais elevados.”
“É um tempo precioso que não deveria nunca ser perturbado, interrompido ou invadido. A mamada é um espaço e um tempo sagrados para serem escrupolosamente respeitados.”
“O banho é mais um momento lúdico do que de limpeza.”
“Nunca deixá-lo pegar friagem. É importante que pés e cabeças estejam sempre protegidos de ventos e frio”
“Deixem que tenha ar para respirar e que também possa abrir os olhos e enxergar um pedaço de mundo e não o protetor de berço!”
“Festejemos, então, sem aflição e em serenidade.”
“Com um recém-nascido deveríamos despir nossas roupas convencionais, esquecer as modas e a etiqueta, e colocarmo-nos de alma nua em relação com outra alma nua que acabou de descer sobre este planeta.”

Tatiana Favaro Lima é professora de ciência da computação e aluna do curso de formação de Doula Pós-Parto da Ong Amigas do Parto.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Pós-parto: Luto e (re) Nascimento

Talvez a primeira consideração a fazer é que a mídia é irreal. Aquela figura de mãe maquiada ao acordar, sempre sorridente, com o bebê dormindo, casa limpa e arrumada, simplesmente não existe!
Uma mulher real em pós-parto só tem olhos para o bebê. Ela acabou de passar por uma mudança extremamente abrupta, que marcará sua vida, sem exageros, para sempre. Ela, muito frequentemente, não assimilou o adeus à barriga, está repleta de hormônios, tem uma nova rotina, um bebê em casa, e, às vezes, um corte no abdômen. Ela está vivendo intensas transformações e experiências, precisa dar conta de tudo sozinha, quase sempre sem ajuda. Sente-se descuidada, sem atenção, o cansaço físico e mental é grande. Ela começa a sentir um desconforto tamanha a dedicação ininterrupta ao seu bebê. A saudade do que um dia foi sua vida bate à porta e junto com ela um sentimento de culpa por sentir-se triste. É tudo tão novo, tão intenso e profundo que as alegrias e angústias se entrelaçam. Tudo é vivido em solidão. Sua alma está exposta e não há nenhuma barreira de proteção. O turbilhão de sentimentos é incompreendido e a sociedade nega a legitimidade dessas emoções. Sentimentos contrários e complementares se conflitam e se confundem. Ao mesmo tempo alegria e tristeza. Força e vulnerabilidade. Plenitude e dor. Agora és mãe, tens que se abrir para um novo mundo. É tudo instantâneo, sem tempo de digestão.Mesmo com toda preparação, é tudo incerto, desconhecido.
 Ora grávida com um barrigão, outrora mãe com bebê no colo.
As emoções estão à flor da pele. O equilíbrio hormonal balançado pelo parto e amamentação inicial se traduz numa tristeza materna, o baby blues, um fato concreto, real, um sentimento legítimo.
Com o parto, a mulher revive o próprio nascimento e se transforma também num ser em nascimento, revivendo o bebê que foi um dia. Isso faz com que ela saiba exatamente o que seu filho precisa: proteção, cuidado, atenção, carinho, colo, calor, amor. Mas a rotina é pesada e a carga emocional também. Muitas vezes a mãe se depara com dificuldades: leite empedrado, produção insuficiente, cólicas, palpites, é muita sobrecarga. E infelizmente há pouquíssimo apoio à essa nova mãe, que enfrenta tudo sozinha.  
Fonte: Google Images
Vive-se um luto, e o luto sempre tem caráter de despedida, e despedir da vida que tinha, da gestação, da barriga, da antiga rotina, não é tarefa fácil. Meses podem se fazer necessários para que isso aconteça. E se o parto não ocorreu como o desejado, talvez a vida não seja tempo suficiente para assimilar tudo. Mas é tempo também de boas-vindas. É um novo recomeço. Tudo vai ficando mais ameno e tranqüilo. O bebê cresce e a rotina de cuidado absoluto vai se transformando em brincadeiras, risos, novidades, e o profundo contato entre mãe e filho se intensifica. A vida vai voltando a ser colorida e divertida, e os encantos de ter um bebê são vistos a todo momento. As dobrinhas enchendo, as roupas ficando pequenas, “puxa vida, que leite poderoso! Eu dou vida ao meu bebê”.
A aceitação do que já foi, o valor de tudo que aconteceu é um processo lento e muito bonito. Aceitar e entender o novo também acontece lentamente e a beleza é ainda maior. O mundo se torna belo quando temos um filho. A vida se torna plena. Com dificuldades e maravilhas seremos sempre um mundo de conforto e confiança para nossos filhos. E eles, serão sempre o nosso mundo.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Parir e Nascer

Cesárea
por Kalu Brum
Era uma barriga imensa cheia de vida e sonhos. O ventre se avolumava à medida que meus questionamentos iam ficando mais aguçados. Como o bebê sairia de lá de dentro? Era bom senti-lo dentro de mim, mas tinha medo de saber como seria quando chegasse. Será que seria como nas novelas que depois que a bolsa rompe, em segundos, a mulher estava descabelada de tanto gritar com um bebê gigante nos braços que já sabe mamar?
Achava que parir era natural, muito embora desconhecesse a razão pelas quais todas as minhas conhecidas e familiares terem tido cesáreas. Eu achava que bastava querer. Me orgulhava da minha avó que havia tido todos seus 7 filhos em casa, sem anestesia.Eu não queria tanto. Só desejava parir, só desejava que meu filho saísse pelo mesmo lugar que ele entrou.
Eu tinha um médico que me conhecia desde que eu era adolescente. Gosto do meu médico, que sempre me fez acreditar que eu escolheria sobre meu parto, apesar de não dar abertura para falarmos sobre ele. Os meses se passaram até que eu comecei a sentir desconfortos no corpo, na alma, contrações que as vezes estavam acompanhadas de dor.
Já não gostava mais de estar grávida. A ansiedade de ver meu filho nos braços era maior, agora, que meu desejo de esperar parir. Eu nunca disse isso, mas ainda bem que meu médico disse. Depois de um ultrassom com 39 semanas, constatou que meu líquido estava baixo (ou que tinha circular de cordão ou que o Doppler deu alterado). Fiquei convencida de que meu bebê estava correndo risco de morte.
Saí do consultório, em um misto de tristeza e alívio. Eu não teria que parir. Mas, em breve, meu filho estaria comigo. Aproveitei para depilar, fazer as unhas e escova. Queria estar linda quando meu filho me visse.
Aquela noite quase não dormi imaginando o sofrimento do meu bebê dentro do meu ventre. Estava com medo do que poderia me acontecer. Mas tinha certeza de que o médico faria o melhor por nós.
Acordei, fiz uma bela maquiagem, peguei a malinha com roupas, o enfeite da porta da maternidade. Chegando a recepção fui recebida com frieza. Passei pela avaliação de um médico que nunca me viu. Meu médico estava a caminho. Fez um exame de toque, falando com o assistente, como se eu não estivesse lá. Fui levada, de cadeira de rodas, vestida de uma feia camisola que me deixava com as nádegas de fora para sala de pré-parto. Iriam fazer a raspagem dos meus pelos, mas Gilmara, a depiladora, já tinha feito um excelente trabalho. Tiraram meu esmalte. As luzes artificiais não me deixavam descansar. Ouvia outras mulheres parindo. Parecia haver dor. Mas parecia ouvir vida ali. Aqui, estava sozinha, com frio e medo.
Alguém entrou para pegar minha veia. Me chamavam de mãezinha. Eu não tinha roupas e agora, não tinha nome. A enfermeira saiu, sem me olhar, tocar ou acolher. No silêncio ouvia meus medos. De cadeira de rodas fui para o centro cirúrgico. Encontrei com minha família e logo nos separamos enquanto estava recebendo a anestesia. Sentada, curvada, só desejava uma mão para segurar, para me fazer sentir viva. Mas só escutava frases desconexas da conversa do anestesista com o assistente. Eles falavam de futebol. Eu parecia ser um pedaço de carne qualquer.
Logo fui colocada deitada. Não sentia nada: nem frio, nem calor, nem meus dedos. Estava morta da cintura para baixo. Um pano cinza subiu a minha frente e lá de longe, sem poder em nada cinza , que estava em toda parte, meu companheiro. Eu só escutava o barulho do aparelho dos batimentos cardíacos. Ele pulsava, mas eu me sentia morta, invisível. Respirava ar artificial, meus braços esticados e abertos como numa cruz.
Todos olhavam o nascimento menos eu. Era uma boneca? Um pedaço de carne aberto? O bebê estava encaixado e sentia meu corpo balançar de um lado para o outro com violência. Já esquecia porque estava ali em meio a conversas tão vazias. Comentavam sobre o terremoto que abalou o mundo. E eu? E meu mundo?
Estava frio. Senti um calor no meu coração. Era um chorinho. Mas logo o levaram. Queria saber se estava tudo bem. Mas ninguém me dizia. Eu não podia me mexer. Rapidamente alguém me traz o bebê e sem que pudesse me virar ele já tinha ido. Nem sabia como ele era. Ele nem viu meus olhos borrados, nem minha maquiagem desfeita. A toca cobria a escova.
Meu companheiro saiu e estava sozinha novamente. Eles me costuravam como se fosse uma coisa qualquer. Distraia-me no som da aparelhagem. Tudo acabou e fiquei sozinha no centro cirúrgico. Tinha que conseguir mover as pernas para subir no quarto e ver meu bebê. Primeiro lutei para ver se conseguia qualquer movimento. Foi em vão. Desisti. Nem apagaram as luzes. Nem desligaram o ar. Estava com frio, com medo, sozinha. Será que isso é nascer como mãe? Será que isso é nascer? Em meus sonhos arquitetava um nascimento diferente em que estivesse em pés e com braços firmes para segurar meu filho nos braços e dar-lhe os seios assim que chegasse.
Ps: Esta história é mera ficção. Existem cesáreas necessárias, mais bonitas e cheias de significado. Mas, a grande parte das histórias, são bem parecidas com essas. Ela completa a visão do nascimento pelo bebê que passou por uma cesárea logo abaixo seguida pela visão de um bebê que passou por um parto respeitoso.

Como você quer nascer?
por Kalu Brum
Era um mundo silencioso. Já reconheço a voz doce da minha mãe, a grave voz do meu pai e algumas pessoas que sempre estão por perto. Aqui o mundo é constante. Não sinto frio, ou fome. Desconheço a sede, o ritmo, a gravidade.


Os ruídos são constantes: o pulsar das veias, as batidas do coração, o ruidoso estômago. Já sabem que posso detectar a luz ou ausência total dela.
Sinto medo, tenho pesadelos, tenho soluço. Gosto da sensação de quando minha mãe come chocolate.
Ouço barulhos estranhos. Ela está com medo. O que isso que sinto? Estou ficando sonolento. Sinto uma queda. Estou do lado de fora. Como cheguei aqui? Vejo luzes que me cegam. Onde está o coração? O calor? Aqui dentro está frio, muito frio. Desliguem este vento.
Estou afogando. Meu Deus?! Choro com força. Me salvem! Mãe, cadê você? Não sei falar sua língua. Estou com medo! Pelo menos um ambiente quente. Mas é duro. Por que ferem minha pele esfregando este pano?
Sinto um cano a me violar as narinas. O que fiz para merecer tanta dor? Este cano dentro  de mim. Cadê minha mãe? Chego bem perto mas me levampara longe. Quero minha mãe! Por favor!
Esta balança fria o que é?  Por que estão a me medir? Eu só quero um colo e peito. Choro sem parar. Estou exausto. Sei que me olham através do vidro. Pai! Vó! Me tirem daqui! Por que ninguém me ouve?
O que vão pingar nos meus olhos? Nitrato de prata? Mas eu nasci por cima. Como posso ter uma cegueira causada por gonorréia? Ela não tem gonorréia! Isso arde, arde muito. O que fiz para ser tratado assim? Choro com vigor. Estou em pânico.
Pelo menos um carinho na minha perna. Por que aperta? Ai que dor! Uma agulhada! Mais choro. É a vitamina K, medicação usada para prevenir um distúrbio de coagulação. Não te contaram que tem a versão oral? Não te falaram que é só não me banhar e deixar eu mamar? Eu não sei falar, mas de tudo sei. Tudo isso é dor. Será sempre assim?  
Estou exausto. Vou dormir. Quem sabe acordo do pesadelo?
 Espere, por que me acordam? Ah não! Por que tiram minha roupa? Estou com frio. O que é esse liquido? E essa espuma? Eu preciso da proteção da minha pele que retiram. Quem faz tudo isso? Cadê minha mãe? Será que ela  é quem faz isso tudo?
Estou pronto para conhecê-la. Quem é ela mesmo? A pediatra? A enfermeira? Ela também não me reconhece. Não me abraçou com as entranhas, nem ao menos me viu nascer através dos panos. Tenho cheiro de sabão e ela de medicamentos.
Estou sonolento, sofri demais, recebi anestesia nas veias, colírio nos olhos, injeção na perna. Ela me mostra os seios. É difícil para mim, é difícil para ela que geme de dor também. Ela foi vítima como eu, da ignorância do sistema. Mas através dos seus seios, ainda há esperança.
Não vou nascer novamente, vou curar minhas feridas no mundo. Mas se eu pudesse escolher optaria pela primeira parte deste conto. Se você acha que não é verdade tamanho sofrimento lembre-se que 40% das crianças da rede pública  nascem assim como eu. Passam o que passei. E no particular, quase 80%. Quero nascer diferente e só você que me gesta pode optar.
Não se deixe enganar. Não me deixe sofrer. Este vídeoeste e este tem cenas fortes de partos assim como o meu. O seu pode ser diferente. E eu, que ainda estou em você, posso chegar com doçura e gentileza. Pense nisso. Mude o meu plano de parto enquanto pode. E saiba o que realmente acontece para escolher uma realidade gentil. Nascer pode não mais rimar com sofrer. Pode ser sinônimo de  sorrir.



Era um mundo silencioso. Já reconheço a voz doce da minha mãe, a grave voz do meu pai e algumas pessoas que sempre estão por perto. Aqui o mundo é constante. Não sinto frio, ou fome. Desconheço a sede, o ritmo, a gravidade.
Os ruídos são constantes: o pulsar das veias, as batidas do coração, o ruidoso estômago. Já sabem que posso detectar a luz ou ausência total dela.

Sinto medo, tenho pesadelos, tenho soluço. Gosto da sensação de quando minha mãe come chocolate.
Aproximo-me da nona lua. Estou pronto para nascer. Não sei o que significa isso, mas minha natureza deu o início do trabalho de parto. Aqui estava ficando apertado.
 Talvez o braço da minha mãe seja igualmente confortável. Recebo um abraço leve, outro um pouco mais apertado.  Em meu corpo posso sentir os hormônios de êxtase. Entro no ritmo da vida em uma dança minha e dela. É gostoso sentir essa massagem no meu corpo, este braço apertado que me aperta com força em despedida me lançando ao mundo. Esse estreito lugar comprime meu peito, lança o líquido dos meus pulmões para fora.
Aqui fora tudo é estranho. Que frio! Mas este corpo quente me aquece. Ouço sua voz. É ela. Nos conhecemos finalmente. Ainda somos um.  Eu ligado a ela pelo cordão que me nutriu. O ritmo continua natural. O cordão pulsa e quando cessa me desligo sem desgrudar.
É estranho respirar, difícil. Cofff, atchim. O ar entra amigo. Estou seguro, estou sobre ela. Que cheiro bom ela tem. E seu coração ainda posso ouvir ao longe. Isso me dá paz.
Estou com fome. Que delícia este peito! Cheiro, lambo, mamo. Aqui fora é bom. Suave. Não sinto frio porque tenho seu corpo. Nem medo porque ouço sua voz. Foi uma longa jornada e por fim estou no mundo, ainda absolutamente dependente de ti.
Quero dormir porque confio no mundo externo e suave que você me proporcionou.

Fonte: 
http://www.mamiferas.com/blog/2011/03/cesarea.html